"A proposta de Alexandre Órion poderia ser compreendida como uma instalação urbana ou uma espécie de exercício sobre a representação. No entanto, sua experiência flui além dos limites dos rótulos"




UM INCIDENTE SEM IMPORTÂNCIA

A proposta de Alexandre Órion poderia ser compreendida como uma instalação urbana ou uma espécie de exercício sobre a representação. No entanto, sua experiência flui além dos limites dos rótulos. Órion cria situações: caminhando por uma rua, certo transeunte anônimo é vítima de um incidente em sua vida. Foi escolhido, se torna personagem.





O acaso reuniu artista e personagem numa situação inusitada. Nada mais será como antes. O incidente dura uma fração de segundo, o tempo da fotografia. O local onde ocorre: a própria rua, o espaço da fotografia. Entre o meio-fio do palco e o muro enquanto pano de fundo, um acontecimento, um incidente, mais uma cena do teatro imaginário de Órion: o fragmento (aparentemente) sem importância em que seus personagens se eternizam. Saíram de casa sem nada premeditar. Ao final daquele dia ganharam visibilidade, muito mais que os “quinze minutos de fama” prometidos; ganharam inúmeros minutos de exposição na galeria, na mídia, na publicação.





Órion metaforicamente -- ou através do referencial que busca e denomina metabiótica --, expõe a situação teatral do ato fotográfico. E o que advém daquele ato: o longo tempo que ultrapassa o criador e seus retratados, conhecidos, amados, além dos anônimos como os de suas histórias. Curiosas histórias em que o personagem-humano anônimo, que saiu cedo de casa naquele dia, de súbito, contracena com representações conhecidas. Imóveis, como o são as representações, porém ameaçadoras como a cidade, presentes no imaginário coletivo, daí (re) conhecidas de nós outros.

Sempre insisti que as representações vivem. Elas são realidades imóveis, mas vivem no mental, sedutoras, sombrias. Nutrem-se de nossos temores, fantasias e desejos. Tornam-se verdades. Desde muito jovens as histórias em quadrinhos de super-heróis e caubóis, de Nosferatu





e vampirelas sensuais já eram suficientes para despertarem medos, emoções e vontades. Das páginas das revistas para os muros da cidade, apenas uma mudança de suporte e de status. Tornam-se grafittis, alguns ganham fama, acabam se mudando para as paredes dos museus...Outros desaparecem recobertos de tinta, pintados finalmente.

Visitei com Órion a esquina, perto de casa, onde um de seus personagens-representação ainda habita. É noite na rua deserta, o menino de havaianas (ou o vietnamita do cinema?) à espreita, em atitude suspeita. Situação ambígua ou previsível? Retrato da cidade? Qual é a seqüência desse incidente na vida do ser meio-homem, meio-fantasma que se vê à esquerda? Em algumas dessas intervenções Órion nos mostra o final da história, em outras não. O que importa é que existe uma interação entre as figuras de carne e as representações. Após o registro fotográfico ambas passam a conviver num mesmo plano, numa eterna representação. Um fato é criado. Um incidente que parecia sem importância. Virou notícia.

Boris Kossoy é fotógrafo e professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo

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