"Sua obra é uma elaboração do espírito sobre a cegueira coletiva e o silêncio social e político do homem urbano. A sociedade e a cidade se expressam por meio de um artista assim, decifrador de silêncios, desconstrutor de aparências"




O GRAFITE VIVO
DE ALEXANDRE ORION

Quem é o cavalo? Quem é o carroceiro? Quem leva quem? Eis a questão que Alexandre Orion nos propõe num de seus eloqüentes grafites numa parede de rua da cidade. Aquele cavalo grafitado nos fala dos contrários que constituem a armadura da metrópole, a referência das ilusões da nossa modernidade urbana. A arte de Orion nos diz o que o carroceiro-cavalo nunca nos dirá. O grafite e a fotografia desse autor, combinados, são instrumentos de consciência social: fazem da carroça uma metáfora das inversões que nos coisificam na dura e anônima luta pela vida. Aquele cavalo de mentira é verdadeiro na sua interação com o carroceiro que passa e com o transeunte que observa. Ele faz um discurso político, fala pelo trabalhador silencioso que anda de um lado para outro da cidade, catando coisas, no trabalho sem sentido da pessoa substituta do animal. Todos nós estamos





ali naquela representação das nossas contradições urbanas.

Alexandre Orion é artista plástico e fotógrafo. Expôs na Pinacoteca do Estado e no Itaú Cultural. Tem exposto em outros países. Sua arte pode ser encontrada em muros e paredes da cidade: na Rua Girassol, na Rua Amaro Guerra, na Rua João Moura. Ele pinta e depois tocaia os transeuntes com sua câmera. Daí nasce a composição fotográfica de sua obra, na combinação criativa do vivido e do representado. É o modo original de sua intervenção na rua, na interação entre a arte e o público, na ruptura do repetitivo através do riso e do espanto.

Sua obra é uma elaboração do espírito sobre a cegueira coletiva e o silêncio social e político do homem urbano. A sociedade e a cidade se expressam por meio de um artista assim, decifrador de silêncios, desconstrutor de aparências. Orion propõe a compreensão da invisibilidade que nos atormenta, dos mistérios próprios da vida cotidiana na metrópole.





Num de seus grafites, a pintura, que é a cidade, grita com o megafone diretamente para o ouvido do morador de rua que dorme numa calçada. Como se a pobreza o privasse do direito à privacidade, mesmo na rua, o direito ao respeito por sua solidão. O riso que a imagem provoca é o de um remorso questionador.

Nenhum de nós confundirá a linguagem visual de Alexandre Orion com as pichações, as palavras ilegíveis e sem sentido que machucam os olhos e os sentimentos dos moradores da cidade. A pichação é fascista, totalitária, intolerante. Quem consegue ler aqueles rabiscos vê apenas palavras de poder e prepotência, privatização visual do horizonte público, arame farpado da visão de todos. É a escrita dos sem-palavra, a expressão enigmática da alienação dos muitos jovens que foram privados da própria língua e da própria inteligência. A linguagem de rabiscos não emancipa o outro nem humaniza o pichador. Na sua melancólica pobreza é um clamor por justiça, direitos, igualdade. O pichador é uma vítima que quer falar, mas não sabe o que dizer.





Há no desencontro entre pichadores e grafiteiros uma guerra e um confronto de mentalidades. Estes tentando transformar lugares abandonados e arruinados da cidade em lugares da palavra com sentido, da crítica visual do abandono. Aqueles tentando destruir a possibilidade da expressão visual da crítica, ocupando com a mudez dos rabiscos o espaço que poderia ser da eloqüência de imagens e palavras.

Henri Lefèbvre, sociólogo e filósofo, estudioso do espaço, do urbano e das ruas, diria que é guerra surda entre usuários da cidade e consumidores da cidade.

Orion proclama a necessidade visual da arte viva, que fala aos transeuntes, que clama no deserto de idéias e de crítica das ruas. O grafite de Alexandre Orion nos desperta, nos convida à reflexão como usuários da cidade. Convida-nos a lutar por nossa humanidade individual e coletiva, corroída pelo ácido da barbárie que dissolve em nós e na cidade o sentido emancipador do monumento, do belo e da arte. Põe aquilo que nos diz quem somos no lugar daquilo que nada nos diz.

José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo

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